domingo, 24 de julho de 2011

Empresário precisa estudar?

Empresários podem ser fabricados e moldados nos bancos escolares? A discussão a respeito dessa pergunta carrega dois dos mais poderosos — e perigosos — mitos do empreendedorismo: 1) o de que empreendedor nasce empreendedor; 2) o de que não é preciso ter educação nem tampouco experiência para abrir e manter uma empresa com sucesso. Enquanto os cientistas tentam descobrir o gene que faria uma pessoa ter mais aptidão para os negócios que outra (ainda não há estudos conclusivos), o americano Peter Thiel inventou um jeito de deixar o assunto em evidência. Há pouco mais de dois meses, ele decidiu colocar US$ 2 milhões nas mãos de 24 jovens com menos de 20 anos (quase US$ 100 mil para cada um!), desde que eles abandonassem a faculdade e se dedicassem exclusivamente às suas startups (veja na pág. 57). “Precisamos de um melhor modelo de geração de conhecimento”, diz Thiel, ele mesmo um visionário, 44 anos, dois diplomas por Stanford, um de Direito e outro de Filosofia, no currículo, que traz também a fundação do PayPal (sistema de pa-gamentos pela rede) e investimentos de fase inicial do Facebook — negócios que o colocaram na confortável posição de investidor bilionário e mantenedor de uma fundação que leva seu nome.

A ideia de Thiel foi acolhida com ceticismo nos Estados Unidos, país que detém o maior número de escolas de empreendedorismo do mundo: nada menos que dois mil centros, de acordo com a Fundação Kauffman, uma das mais respeitadas instituições dedicadas ao ensino do tema. Por lá, já preocupa o fato de o abandono dos estudos estar sendo considerado até motivo de orgulho em certos meios: “O ambiente de negócios em tecnologia encoraja os estudantes a desistir”, disse ao Financial Times o diretor de empreendedorismo da Universidade de Berkeley, Andre Marquis, que viu três de seus alunos trocarem a escola por startups no último semestre.

Para o professor Enio Pinto, diretor brasileiro de parcerias e programas globais do Babson College, de Boston, outro importante centro de pesquisas, o distanciamento da vida acadêmica levanta pontos importantes sobre a qualidade e a validade da educação, mas pode ser um exemplo perigoso para quem quer se arriscar na nova sociedade do conhecimento: “Um empreendedor que nunca frequentou a universidade não fica automaticamente numa situação mais ou menos confortável. O que muda é a forma de aprendizado: quando se tem educação, os tombos doem menos”.

Será? Para o professor Fernando Dolabela, da Fundação Dom Cabral (FDC), autor de 11 livros so-bre o tema e fervoroso defensor da educação empreendedora, o que está em questão não é a necessidade ou não de estudar, e sim o que é ou não possível aprender. “Não é na porta da universidade que se deve bater quando se procura capacidade. Existem competências que não podem ser ensinadas”, diz, em alusão à aparente habilidade inata que empreendedores têm de identificar boas oportunidades no mercado. Dolabela, contudo, pede calma àqueles que, a partir dessa afirmação, se apressam em dizer que escola é pura perda de tempo. “O motor da geração de ideias não está confinado a quatro paredes, e sim na rua. Mas é inegável que a escola tem o poder de produzir e gerar riquezas em maior escala.”

Seja entre os especialistas, seja entre os empreendedores de sucesso — que colecionam as mais diversas formações —, sobram argumentos para a defesa de qualquer tese sobre a necessidade ou não de cursos e diplomas. Em um país como o Brasil, no entanto, questionar a validade da educação é no mínimo arriscado. Senão, vejamos: os brasileiros ocupam hoje a assombrosa 88a posição no Relatório de Monitoramento Global da Unesco, que observa o desempenho de 127 países em relação a metas de qualidade para a educação. Mais: embora sejamos hoje um dos paí­ses em que mais aumentaram os investimentos em educação, ainda temos 600 mil crianças fora da escola. “Empreendedor precisa estudar, sim. Não é preciso ter MBA para abrir uma empresa, mas o conhecimento é um combustível para o sucesso dos negócios”, diz Juliano Seabra, diretor de pesquisa e educação da Endeavor no Brasil. 

Fonte: http://revistapegn.globo.com/Revista

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